terça-feira, 15 de dezembro de 2015

''Fluir'' de José Agostinho Baptista

Talvez em ti acabem todas as nascentes
E nas rugas que, numa e noutra face,
Esculpiram o medo e a sabedoria,
Se possa ler em comovido olhar
O princípio, o meio e o fim desse caudaloso
Fluir que outrora chamámos de vida.
Talvez agora, tal como ontem e sempre,
Comece a própria morte,
Aquilo que nos devora,
Aquilo que nos convoca para o silêncio e para
A Mão que escreve, sonâmbula e feroz,
Estremecendo.

José Agostinho Baptista nasceu no Funchal a 15 de Agosto de 1948 e é um poeta português contemporâneo. Foi considerado um dos poetas mais importantes e originais da atualidade poética portuguesa. O seu poema ''Fluir'' encontra-se na obra intitulada ''Agora e na Hora da Nossa Morte'' e penso que está muito bem enquadrado, tendo em conta o título da obra. A hora da morte é exatamente o assunto que está retratado no poema. Ainda que esteja poeticamente metaforizado, é um tema complexamente angustiante. No primeiro verso encontra-se uma antítese entre a vida e a morte, sendo que a nascente está relacionada com a água, já que lhe é associado o significado da origem da vida. Relata a vontade inquieta do sujeito poético em comprometer-se  juntamente com outro alguém eternamente ao fim, à morte. O poema faz referência ao olhar entristecido de alguém em quem o sujeito poético consegue visualizar o princípio, o meio e o fim do fluir da vida. Vê a morte como algo que nos devora, que nos atrai para o silêncio eterno e para a mão que vai escrevendo a carta de despedida, entre choros incontroláveis, soluços inquietantes e mãos suadas e dormentes, que tremem enquanto as palavras que estamos desesperados por gritar nos saem da ponta dos dedos, aos poucos e poucos.
Pessoalmente, considero o poema ''Fluir'' um poema de um carácter muito angustiante e de uma beleza poética extrema, sendo que o sujeito poético se encontra num estado de completo desespero. No entanto, revela-o de uma maneira agradável. Esta categoria poética que se baseia nos sentimentos de angústia caótica é, sem dúvida, a minha predilecta. Escolhi esta obra poética por ser extremamente representativa de mensagens obscuras e suicidas, com a presença significativa de várias antíteses, que ajudam a intensificar essas mesmas mensagens.

Bibliografia:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Agostinho_Baptista

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Apreciação crítica da apresentação sobre Bocage

No passado dia 12 de Novembro de 2015 dirigimo-nos à Escola Básica du Bocage, com o propósito de falar sobre o poeta Bocage e a disciplina de Literatura Portuguesa. Visto que tínhamos de falar sobre estes temas a duas turmas, a nossa dividiu-se.
Na primeira metade da turma, o nervosismo estava presente, por sermos os primeiros a apresentar. Para além disso, a turma à qual foi feita a presentação revelou-se inquieta e conversadora. Apesar destes aspectos, a apresentação foi bem sucedida.
Na segunda metade da turma, o ambiente encontrava-se mais leve e descontraído e verificou-se um maior à vontade. O público demonstrou ser mais interactivo e interessado nos conteúdos abordados do que o anterior. Alguns alunos e até mesmo a professora intervieram na apresentação, o que a tornou mais dinâmica. O facto de uma colega nossa ter cantado uma cantiga de amigo também contribuiu positivamente para a apresentação.
No geral, as apresentações decorreram correta e agradavelmente. Os powerpoints também foram um contributo para o bom desenrolar da apresentação.

Eu Perdi-me nela mesma, Bernardim Ribeiro

(Cantiga sua à senhora Maria Coresma)

Uns esperam a Coresma
para se nela salvar,
eu perdi-me nela mesma
para nunca me cobrar.

Mas com esta perda tal
eu m'hei por mui bem ganhado,
porque o melhor de meu mal
está todo no cuidado.
Os que cuidam qu'a Coresma
não é para condenar,
se a virem ela mesma,
mal se poderão salvar.

Bernardim Ribeiro, in 'Cancioneiro Geral de Garcia de Resende'

Desabafo inquietante

E eu, Paula, filha do grande e magnífico homem do teatro, Gil Vicente, estou destroçada. O amor por Bernardim é tudo o que me aquece, tudo o que me arrefece. É tudo o que me corre pelas veias. Mas e ele? Apaixonado loucamente pela Infanta! Um pobre trovador apaixonado por uma mulher tão inalcançável como D. Beatriz! E ela!? Que lhe corresponde apesar de estar proibida de o fazer. Pelo pai, pelo país, pela sociedade! Ela que me diz tanto e eu que lhe digo tão pouco... Não posso. Nunca lhe quis nada senão bem. Mas e eu? Eu que ouço os dois a queixarem-se de não se poderem amar? Eu que sinto o meu coração a sufocar cada vez mais? Não desejo de maneira alguma que Beatriz seja infeliz com um esposo que ela não queira. Quero que seja amada, insanamente amada. Mas só Bernardim a ama assim... E também nunca quis que Bernardim fosse infeliz por não me amar como eu o amo. Amo-o. E amo-o tanto! Amo-o tanto que não consigo não o amar. Tenho esta instável confusão sentimental presa dentro de mim!